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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Os deuses têm sede e dão fome

A Misericórdia de Faro tinha uma cantina velha. Na cozinha apareceram duas baratas mortas. Azar, foi no dia em que a ASAE inspeccionou. Horror! Os pobres, lá por serem pobres, também têm direito à limpeza. Corta-se a direito: encerra-se a cantina. Cantina de comida, comida que deixa de ser dada. Segundo a Misericórdia, 20 sem-abrigo não tiveram mais a sua sopa. 20? Talvez exagero. Falemos de um. Um. Sem sopa. Até que a pureza se instale na cozinha encerrada. As obras estão prontas no fim do mês. Entretanto, o que fazer com aquele tal sem-abrigo? Proponho que um inspector da ASAE o erga nos braços e lhe diga: "Pobre! No fim do mês tu comerás sem baratas, graças à ASAE. Agora eu sou mau, para que amanhã sejas feliz." Foi mais ou menos o que Gamelin disse a um garoto, beijando-o. Évariste Gamelin, juiz na Revolução Francesa, no romance Os Deuses Têm Sede, de Anatole France. "Ele é virtuoso. Ele será terrível", suspeitou alguém quando soube Gamelin juiz. De facto, ele foi devoto da santa guilhotina. Depois de erguer o miúdo, viu-o ao lado da mãe, uma nobre. "Talvez guilhotine a mãe", disse Gamelin, amargo. Sofrem muito os justos pelos nossos amanhãs felizes. E, vão ver, aquele sem-abrigo nem agradece.
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